PAPILOMAVÍRUS HUMANO – “HPV”

HISTÓRICO:

     O HPV afeta milhões de indivíduos, mundo afora, adquirindo proporções epidêmicas, atingindo homens, mulheres e crianças. Por ser uma afecção de caráter multidisciplinar, é encarada como um desafio à saúde pública.
     Em 1933, Shope e Hurst descobrem lesões em coelhos, transmitidas por um extrato filtrado, de origem viral, isento de células. 
     Rous e Kidd, anos mais tarde, demonstram que esses vírus, quando transmitidos a coelhos, provocavam carcinomas cutâneos, quando a pele era pincelada por alcatrão.
     Muitas espécies animais são portadoras de Papilomavírus, e a infecção é associada ao desenvolvimento de tumores. Ao aparecimento de verrugas cutâneas, vegetações venéreas na espécie humana, se associou o Papilomavírus Humano.
     O HPV pertence a uma família viral, denominada papovavírus, formados por uma dupla cadeia de DNA, e seu genoma é composto por 7900 pares de base, que infectam o revestimento da pele e de certas mucosas. Este tropismo se deve à sua “célula-hóspede”, o queratinócito. As lesões por HPV podem acontecer na pele, no aparelho respiratório, na bexiga urinária e nos tratos anogenitais, podendo transformar células normais em células tumorais.
     O vírus é exclusivamente intracelular e infecta células mitóticamente ativas a fim de se estabelecer no epitélio. Já existe mais de uma centena de genomas HPV catalogados.

VIAS DE TRANSMISSÃO DO HPV:

v Sexual
v Não Sexual (familiar ou hospitalar por fomites)
v Materno-Fetal (gestacional, peri e intraparto)

     A via sexual representa a maioria dos casos. Na via não sexual os fomites tais como toalhas, roupas íntimas, além do instrumental ginecológico, são os que prevalecem na transmissão.
     Na via materno-fetal, a placenta fica como principal veiculador do vírus, e durante o parto com a dequitação pode haver contaminação viral. O HPV fora do organismo tem uma pequena resistência e por este motivo, a transmissão por fomites é viável por um curto período de tempo. Contudo, mulheres e crianças sem atividade sexual poderão desenvolver a infecção.

HPV NA MULHER: 

     A infecção genital pelo papilomavírus humano é a DST (Doença Sexualmente Transmissível) viral mais freqüente na população sexualmente ativa. Estima-se o aparecimento de 1 milhão de novos casos, por ano, de infecção por papilomavírus humano.
     A infecção pelo HPV pode se apresentar sob três formas distintas: Latente, Subclínica e Clínica.

    Latente: Na ausência de evidência clínica, colposcópica, citológica e histológica de lesão, a infecção só poderá ser detectada através de estudos moleculares, com sequenciamento de HPV/DNA. São usadas técnicas de hibridização molecular in situ (HIS), imuno-histoquímica, reação em cadeia de polimerase (PCR) e captura híbrida, a mais usada na atualidade.
     A captura híbrida para HPV é capaz de identificar 18 tipos de vírus, que mais freqüentemente acometem o trato genital feminino. O tipo de HPV, a persistência do vírus e a carga viral são marcadores importantes para se avaliar o risco de progressão para o carcinoma invasivo.

    Subclínica: É a forma mais freqüente de infecção pelo HPV no colo uterino, diagnosticada por colposcopia alargada com o uso da solução iodo-iodetada de Schiller e o ácido acético a 5%.

    Clínica: É a forma evidenciável a olho nu, não apresentando dificuldade diagnóstica. O condiloma acuminado (excrescência carnosa, tumor) dos órgãos genitais externos é bem conhecido desde a antiguidade, vulgarmente chamado de “Crista de Galo”. São lesões exofíticas, com pequenas neoformações sésseis, papilares, múltiplas e cobertas por epitélio queratótico.

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL:

v Estudo de Biologia Molecular:

     A captura híbrida para HPV é capaz de detectar os 18 tipos de vírus que infectam o trato genital feminino. O grupo A possui sondas para os HPV de baixo risco (6-11-42-43-44). O grupo B, sondas para vírus de intermediário/alto risco (16-18-31-33-35-39-45-51-52-56-58-59 e 68).
      O sistema de captura híbrida (DNA-HPV / RNA-HPV), em microplaca é uma solução hibridizadora que utiliza anticorpos na captura, com amplificação do sinal, detectado por quimioluminescência.

v Citologia Cérvico-Vaginal: 

     O exame citológico é um teste de “screening” das pacientes e não favorece diagnóstico definitivo. Quando um esfregaço é referido como “dentro dos limites da normalidade”, significa que naquela amostra não foram identificadas células alteradas, não garantindo que a paciente não tenha uma lesão epitelial. Devemos lembrar que há uma taxa de exames falso-negativos, mesmos nos melhores serviços de citopatologia. Para otimização do exame citológico, é preciso que as partes envolvidas cumpram bem o seu papel.

Ø Em relação ao médico:

     Informar ao citopatologista todos os dados clínicos relevantes, tais como idade, DUM, antecedentes obstétricos/ginecológicos, uso de medicações. Deve haver um bom relacionamento com o citologista.

Ø Em relação ao paciente:

     Fazer o preventivo, tão logo inicie sua atividade sexual, colher o exame em condições apropriadas, repetir na data indicada pelo médico e levar o laudo do exame para orientação médica.

Ø Em relação à coleta:

     Deverá ser realizada por profissional treinado, usar espátula de Ayre para vagina e cérvice e escova Campos da Paz (cytobrush) para o canal endocervical. É fundamental a representação da junção escamo-colunar (JEC). Após coleta, fixar “imediatamente” em álcool ou outro fixador.

Ø Em relação ao laboratório:

     Rigoroso cuidado para evitar troca de material, coloração e montagem de boa qualidade. O citotécnico ou profissional deve ser bem treinado e não realizar jornada de trabalho excessiva. O responsável técnico deve implementar a revisão preconizada pela OMS. Controle de qualidade interno e externo. Com estes cuidados, o exame citológico passa a ser um recurso de alta confiabilidade, uma excelente prevenção.

v Histologia:

     Nos casos de lesões intra-epiteliais provocadas pelo HPV, se constitui no padrão ouro (Gold Standard).

v Imuno-Histoquímica:

     Detecta revestimento protéico das partículas virais do HPV. Não é um método de escolha por sua baixa sensibilidade.

v Microscopia eletrônica:

     Usada na investigação científica.

O PAPEL DO HPV NO CÂNCER GENITAL: 

     Infecções genitais são altamente prevalentes em grupos sexualmente ativos. Estudos epidemiológicos confirmam a forte associação do HPV com neoplasias cervicais, que são lesões precursoras presumíveis do carcinoma e adenocarcinoma invasivos.
     O papel causal do HPV na indução dos condilomas foi comprovado pela transmissão pessoa-a-pessoa e em sistema de modelo animal.
     HPV-DNA foi encontrado em até 95% dos cânceres cervicais, independentemente de outros fatores de risco. A prevalência foi o tipo HPV 16 para carcinomas e HPV 18 para adenocarcinomas e nos tumores adenoescamosos. Cerca de mais de 30 tipos de HPV infectam a mucosa anogenital, provocando condilomas e neoplasia intra-epitelial de diferentes graus. Os HPV tipo 16, 18 e 45 são distinguidos por uma forte associação com NIC´s de alto grau.
     Na mulher, o HPV pode atingir a vulva, a vagina, o colo do útero (ectocérvice e endocérvice), a região anal e outros sítios.

PREVENÇÃO:

     Prevenção significa redução da morbidade e mortalidade causada por uma doença. Nas DST´s, o importante é a interrupção da cadeia de transmissão. A prevenção deve ter como estratégia as constantes campanhas informativas à população em geral.
     Uso de preservativo masculino ou feminino deve ser estimulado para evitar não só o HPV como as outras DST. A vacina, ainda em fase de pesquisa, deverá ser uma alternativa importante, com uma dose adequada para formação de anticorpos específicos.
     A citologia cérvico-vaginal tem sido de enorme valor no rastreamento e na redução da mortalidade. Também a colposcopia e a biologia molecular têm sido indubitavelmente de enorme valor na prevenção do câncer do colo de útero.

COILÓCITO - Efeito citopático compatível com HPV
PARACERATOSE
DISCERATOSE

Setembro - 2004
Serviço de Citologia Professor José Augusto Machado © 2003-2011